AINDA TENHO ESPERANÇAS

Há pelo menos 50 anos venho esperando por um Brasil melhor. Ja passei por vários Brasis, em cada um deles recalibrei minhas esperanças para a nova ordem política que passava a vigir. Atingi minha maioridade na época do regime militar, dali para cá passei a analisar os fatos com minha própria cabeça. Em todo esse tempo, o traço comum entre eles foi a alienação do povo e um mar de corrupção e desmandos. Venho esperando e lutando desde minha trincheira de cidadão honesto e trabalhador por um tempo em que o povo tenha voz e vez. Pago meus impostos religiosamente, por isso me sinto no direito de falar de governos aberta e destemidamente. Os compadrios e conchavos ora da direita, ora da esquerda levou nosso povo a uma espécie de anestesia e arreflexia política. Uma descrença geral e uma indiferença quanto aos destinos do País. Disso se aproveitaram os ratos de plantão para saquear a nação e distribuir o butim entre a companheirada. Esse estado de coisas foi corroendo os três poderes da república e entranhando o tecido social de maneira que sem percebermos paramos de estranhar os malfeitos. Escondendo-nos atrás do “no Brasil é assim mesmo”. Nunca entregarei os pontos, acho que chegará o dia em que não vamos mais nos envergonhar de ser honestos. A lisura, a honestidade, o compromisso com o bem coletivo será a tônica. Isso no entanto será para meus filhos e netos. Com a chegada deste último governo senti que poderia ser diferente, havia um sopro de renovação no ar. No entanto em que pese suas intenções de mudanças, o presidente vem tropeçando nas próprias pernas, e nas pedras colocadas no seu caminho pelos opositores e até por seus próprios filhos. O bate cabeças entre os poderes é evidente. A vaidade prepondera e se impõe sobre os interesses do povo. Nessa semana por exemplo, fomos surpreendidos por um ministro do STF, concedendo um hábeas corpus a um dos maiores traficantes do país, baseado em tecnicalidades da lei. Ora, manter um indivíduo desta periculosidade preso deveria ser do interesse de todos, inclusive do próprio ministro que concedeu o HC. Qual é a dele? Bater no peito e dizer que aqui quem manda sou eu?. Isso é vaidade pura além de dar margens a deduções bem piores. – Esses desencontros entre a vontade do povo e decisões individuais de alguns ministros do supremo. A atuação dissimulada dos membros do parlamento, e as mãos atadas do presidente, fazem com que minha aspiração se torne cada vez mais distante. Temos hoje um governo divido em várias fatias, cada uma pensando em beneficio próprio, e dane-se o povo. Precisamos de um líder que dê um murro na mesa, puxe a responsabilidade para si e recoloque as coisas nos devidos eixos. Isto não é tão fácil de acontecer. Mas não custa sonhar. Não desistirei nunca de lutar.

CORAGEM

        A porta se fechou atrás da paciente que  deixou o consultório do doutor Medeiros.  O velho médico acompanhou com os olhos os seus passos lentos e vacilantes e então perdeu-se em seus pensamentos, agradecido pela lição de moral que tomou.  “Ela com quase noventa anos, vinte a mais do que eu, como pode ter essa serenidade na iminência da morte?”  Portadora de uma doença terminal, vinha periodicamente ao seu consultório para avaliação geral, e em busca da receita para os medicamentos que ainda lhe traziam algum alívio. Hoje ela quis conversar, e como era última paciente o doutor deixou que ela falasse o quanto quisesse. Virou conversa de dois amigos, não de médico e paciente. Dona Clarinda discorreu sobre sua vida, sua trajetória como mãe, como avó, e agora como bisavó. Tinha ganhado há 20 dias uma bisnetinha linda. – “Doutor, sei que já não tenho muito tempo, por isso estou abusando de sua paciência para fazer  essa espécie de balanço. Já vivi uma vida longa, e como toda vida longa cheia de altos e baixos. Vivi momentos de extrema felicidade como no meu casamento, no nascimento de cada um dos meus cinco filhos. Tive saúde para acompanhar e orientar o crescimento e a educação deles. Tive tristezas também quando perdi um dos meus bebês com trinta e cinco semanas de gravidez, e o meu marido há nove anos. Foram dores que me fizeram balançar na saúde e na fé. Mas superei, e tudo ficou no passado. Agora estou recebendo de bônus as gerações seguintes. Aprendo e me renovo a cada dia com os meus netos. Me ensinaram a lidar com computador, redes sociais estas coisas modernas que eu nunca pensei que iria alcançar. Falo com minha filha diariamente, ela mora em Turim, na Itália, e vendo a carinha sorridente dela. O senhor já pensou?”. O médico sem dizer uma palavra, apenas concordando com a cabeça,  ouvia pacientemente o seu relato . “Olhe aí na minha ficha doutor. Há quanto tempo sou sua cliente?” – “Vinte e dois anos dona Clarinda” – “Pois é, vinte e dois anos. Já estive aqui dezenas de vezes, sempre com coisas simples, uma gripe, uma dor na coluna, uma vez com pedra na vesícula, fiz a cirurgia por vídeo e fiquei boa. Uma ou outra coisinha a mais, mas tudo simples. Agora já com oitenta e oito anos é que foi me aparecer esse tumor. Está me judiando, é verdade, a dor é muito grande. O senhor mesmo já me indicou um oncologista que propôs fazer quimioterapia. Ora doutor, eu não quero e nem vou fazer. Ainda tenho vaidade, quero levar meus cabelos comigo. Na minha idade esse tratamento só vai me transformar num esqueleto ambulante, e careca ainda por cima. Está decidido, não vou fazer. Quem teve a trajetória de vida que eu tive, tem muito mais a agradecer do que a pedir a Deus. Meu corpo agora já está cansado, já reluta em obedecer minha mente. Isso é um aviso que chegou minha hora. Portanto me prescreva os analgésicos que venho tomando e eu vou embora pegar minha bisnetinha no colo até meu último dia. Não me arrependo de nada, e também não vou pedir mais nada. O Pai é quem sabe. – Doutor Medeiros sentiu seus olhos marejarem. Pegou o receituário, prescreveu conforme o pedido dela e despediu-se dizendo: “Dona Clarinda, que Deus a abençoe sempre e conserve essa sua coragem. É muito raro um ser humano viver com essa clarividência”. Dona Clarinda pegou a receita, beijou a mão do médico e disse: “Obrigado por tudo doutor”, e virou-se para ir embora. Ele ainda não sabia, mas aquela seria sua ultima consulta.

GOSTO AMARGO…

               Chovia a cântaros, o terreno encharcado tornava a marcha lenta e cansativa. Os policiais estavam a ponto de desistir da perseguição. Um deles disse “Porque não deixamos para amanhã, nesse temporal não vamos encontrar nada”. O tenente que comandava a patrulha simplesmente resmungou,  “em frente, vamos pega-los”. O arrombamento do caixa eletrônico da agência bancária da pequena Torixoréu tinha acontecido por volta da meia noite numa operação envolvendo armamento pesado e explosivos. A perseguição que o destacamento policial da cidade empreendeu contava com o tenente e quatro soldados, e já durava mais de duas horas. perseguiram os ladrões na raquítica viatura da delegacia sem muita esperança de alcança-los. Mas, a sorte favoreceu, o carro dos bandidos caiu numa vala. Sem chance de retira-lo, embrenharam-se na mata mesmo debaixo daquele aguaceiro. Esse era o cenário em que se encontravam. O tenente já grisalho, por volta dos cinquenta e poucos anos, com físico pouco invejável, uma barriga saliente, enxergou ali talvez a última chance para uma promoção antes da aposentadoria. Se resolvesse aquela situação  naquele tempo recorde, não teria como não ser considerado um herói. Provavelmente seria condecorado e quem sabe promovido. O salário de capitão era bem melhor.  Ia pensando em seus ganhos pessoais, e dando ordens “Não esmoreçam, vamos pegar esses vagabundos vivos ou mortos”.  Os relâmpagos ajudavam a clarear o caminho, alguns minutos depois  a chuva diminuiu um pouco e começaram a subir a encosta de um  morro. Fazendo uma pequena pausa para tomar fôlego, um dos soldados avistou a uns duzentos metros uma pequena luz vermelha que aumentava e diminuía de intensidade  a intervalos ritmados. Avisou o tenente e começaram a fazer um semicírculo para surpreender os perseguidos. Um relâmpago mais forte permitiu que avistassem um casebre de camponês numa clareira. O tenente disse em voz baixa: “são eles, estão lá dentro e tem alguém fumando”. Aproximaram-se em silêncio até uns trinta metros da casa e a cercaram. O tenente mirou na luzinha vermelha e disparou o primeiro tiro que entrou pelo olho esquerdo do bandido e espatifou-lhe o crânio. aí foi uma fuzilaria dos diabos. Tiro para tudo que é lado.  Com armamento mais potente os outros quatro bandidos tentaram romper o cerco para continuar a fuga, mas o fator surpresa os desnorteou um pouco, e foram sendo alvejados um a um. O último ainda tentou se render levantando os braços mas também tombou. Saldo: três mortos e dois feridos. Um dos soldados foi mandado de volta para providenciar a remoção dos mortos e dos dois feridos. Chegaram de volta à cidade já com a luz do sol. Uma pequena multidão cercou a cadeia local aos gritos de “mata! mata! – Prevendo um linchamento, o tenente fechou bem as portas e pediu reforço pelo telefone à cidade mais próxima a 40 quilômetros e foi tentar acalmar a massa. Conseguiu contê-los às duras penas ajudado pelo fato de que não tinham matado ninguém, e o dinheiro ter sido recuperado. –  O tenente estava feliz, tinha certeza que seria promovido. No seu entender tinha sido um ato de bravura e uma ação rápida e irretocável. No entanto, na semana seguinte foi chamado à corregedoria que tinha recebido uma representação questionando seus métodos. O sucesso de sua missão tinha sido visto como possível uso de “força excessiva” e desrespeito aos direitos humanos, alegando ainda que os bandidos já estavam encurralados e com um pouco mais paciência e inteligência teriam se rendido. O corregedor ainda o informou que seria afastado de sua função enquanto o processo tramitava e colocado em ações administrativas. Os bandidos feridos foram para o hospital local, e quando tiveram alta foram liberados para esperar o julgamento em liberdade. Adeus promoção! sobrou para o tenente Rosaldo apenas muita revolta e uma única satisfação: a de ter atirado naquela luzinha vermelha. Depois de mais alguns anos foi para a reserva como capitão, mas não com os louros e o reconhecimento  que esperava e sim com o gosto amargo da frustração.

AVP-06/08/2020

O ATEU

            “Não creio em Deus, nem em religiões, e em nenhuma  destas fantasias criadas para manter o homem sob domínio”, dizia seu Oliveira um português nascido em Angola que até parecia se vangloriar disso, pois volta e meia repetia esse mantra. Pertencente à minoria branca daquele país, teve que sair às pressas fugindo da guerra civil que se desencadeou na década de 70, logo após a separação de Portugal. Fugiu com a roupa do corpo. Um helicóptero da cruz vermelha internacional o deixou na embaixada da Bélgica na capital Luanda. Ali ele e outros refugiados receberam salvo-condutos para deixar o País. Como a maior parte de sua família já vivia no Brasil, veio para cá. Segundo ele, tinha visto maldades demais, fome, miséria, sangue correndo em valas, naquela guerra cruel e desumana. Então questionou Deus. Onde estaria ele diante de tanto horror e desumanidade? Seria ele parcial? Capaz de proteger uns e abandonar outros. Não eram todos seus filhos? Ali segundo ele, perdera toda a fé que o acompanhava. Tinha sido católico como seus pais até os trinta anos. Mas agora, se declarava ateu.  –  Estabelecido no Rio de Janeiro desde 1979, tinha uma pequena padaria no bairro de Piedade. Alguns anos depois de sua chegada casara-se com Raimunda também fugitiva da seca no sertão nordestino, mas que nunca perdera a fé em Deus, nem em seu padrinho, o padre Cícero de Juazeiro do Norte a quem pedia intercessão todos os dias. Era bem devota, mas respeitava as opiniões e atitudes do marido. Viviam de maneira modesta mas extremamente honesta. A cada conquista, como a compra de uma casa para morarem, a compra de uma televisão mais moderna, ou qualquer melhoria por pequena que fosse na vida deles. Ela agradecia ao seu padrinho. Já ele dizia: “É pá!, eu é que me ponho a trabalhar quinze horas por dia para conseguir o que temos. e tu com essas crendices atribui tudo a este teu padrinho”. Viviam bem, mas tinham essa importante diferença. Passaram incólumes pelo primeiro, pelo segundo, só no terceiro assalto é que Raimunda foi ferida. Ouvindo vozes alteradas na parte da frente da padaria, exigindo o dinheiro do caixa onde Manuel (Oliveira) estava. Ela veio correndo da parte de trás, trazendo uma pá de madeira com a qual esperava por para correr os pivetes. Mas não eram pivetes, Um dos homens percebeu sua chegada e atirou meio no reflexo. O tiro acertou Raimunda na cabeça e ela tombou entre as prateleiras de mercadoria. O assaltante gritou uma especie de código: “sujou! sujou!” e os dois partiram em disparada. Desesperado, com Raimunda nos braços, Oliveira chamou um taxi e foram para o Hospital. A cirurgia foi feita, agora sua mulher estava na UTI já há duas semanas lutando pela sobrevivência. Sem nada mais a fazer, a não ser esperar, Oliveira deixou o hospital e começou a caminhar sem rumo. Alguma força o levou para igreja da Candelária. Entrou na igreja pela primeira vez em mais de vinte anos, e entrou bravo. A igreja estava quase vazia, ele dirigiu-se ao altar e soltou o verbo: “Que perseguição é essa pá? Já não chega teres permitido que me tirassem tudo que tinha na minha terra. Permitido aquelas horríveis atrocidades que tive que presenciar, e que quase me levaram à loucura. Agora me vens com essa! Queres tirar-me a mulher que amo e que está a meu lado diuturnamente. Agora que estou reconstruindo minha vida com a ajuda dela. Que temos dois filhos para educar. Ora pá! e tu queres me convencer que não és vingativo, que não persegues ninguém. Ora, faça-me o favor! Vim aqui protestar perante a ti, contra essa sequência de desastres que tem me acompanhado. Basta pá! faça alguma coisa. Se não por mim, por ela que tanto te adora”. Feito o desabafo, sentou-se em um banco e ficou em silêncio. Então seu celular tocou, era do Hospital, Raimunda acordara. Levantou-de com lágrimas nos olhos. Agora lágrimas de agradecimento. Recuperou sua fé e saiu dali com um ensinamento. Deus não espera que seus filhos tenham “sangue de barata”,  espera  questionamentos, argumentos, solicitações, isso facilita para que ele atenda os seus pedidos. No entanto não entende e se entristece quando algum filho vira-lhe as costas, mas nem assim desiste dele.

NOVOS TEMPOS

               Recluso há mais de cem dias por conta desse famigerado coronavírus, vi com bons olhos o início da flexibilização, com a reabertura de bares e restaurantes. Mesmo com muitas limitações acredito ter sido um alento para a maioria da população. Ontem, domingo a tarde chamei minha mulher para irmos a algum lugar tomar um café. Saímos de carro procurando, passamos pelo Franz Café fechado, Carino café fechado. Nem todos ainda aderiram a reabertura, e acredito que alguns simplesmente não reabrirão. Mas por fim encontramos um café aberto. Descemos do carro numa felicidade sem fim, e aí começamos a notar as diferenças: Um cartaz na entrada exigia o uso de máscaras, por sorte as usávamos. Mediram nossa temperatura e nos passaram álcool em gel nas mãos. As mesas bem espaçadas umas das outras, cerca a de dois metros. Mas nada disso nos tirava o prazer de estar ali, nem a sensação libertadora que aquele simples ato nos proporcionava. O Garçon se aproximou todo paramentado, parecia um astronauta, com um capote de manga comprida, máscara e um escudo de acrílico protegendo o rosto (face shield), pedi o cardápio e ele gentilmente informou que em vista da pandemia em curso, os restaurantes não terão cardápio físicos, só eletrônicos. De posse de um tablet ele passou a recitar o que tinha disponível no estabelecimento. Escolhemos e e enquanto esperávamos ficamos apreciando o jardim. Por fim chegou nosso pedido e aí começou a única inconveniência. Coloquei o adoçante no café e me esqueci da bendita da máscara quando levei a xícara à boca foi aquele desastre sujou a máscara, derramou o café, e tudo o que tinha direito. Minha mulher ria às gargalhadas. Fiquei puto, tirei a máscara. O Garçon polidamente me advertiu que eu teria que usa-la mesmo suja, pois no caso de uma fiscalização eles seriam multados. Eu me sentia ridículo. Aí tive uma idéia. Sou um cavalheiro à moda antiga, trago sempre um lenço no bolso. Dobrei-o em diagonal, e amarrei as duas pontas atrás da cabeça  e fiquei ali parecendo um assaltante de diligência naqueles filmes antigos de faroeste. E na hora de comer levanta a máscara, abaixa a máscara, levanta a máscara, abaixa a máscara. Uma chatura. Mas nada conseguiu me tirar a alegria de estar ali. Na hora de saírmos Chamei o Garçon e pedi a conta. Aí me dei conta de que nunca fiz tanta conta de pagar uma conta. Era só felicidade. Fomos para casa de alma lavada, mas com a certeza de que vamos ter que conviver ainda por um bom tempo com as alterações impostas por esse verdadeiro desastre sanitário que assolou o mundo todo. Algumas delas provavelmente se tornarão permanentes. Pelo sim pelo não, levarei sempre uma máscara de reserva.

AVP-27/07/2020

 

AS DUAS VOZES…

                   O galo cantou as três da madrugada e despertou Gumercindo, dono da fazenda Riachão. O homem revirou-se na cama resmungando “bicho imundo, isso é hora de acordar os outros?”, e aí pronto, não dormiu mais. Uma meia hora depois começou a ouvir barulhos estranhos lá fora. Levantou-se e sem acender a lamparina destramelou a janela com cuidado e espiou para fora. Notou que os barulhos vinham das bandas do  galinheiro. No escuro voltou ao quarto com cuidado para não acordar a mulher, abriu o armário e pegou a espingarda e dois cartuchos. Abriu a porta dos fundos com cuidado pensando que desta vez acertaria contas com a raposa que vinha comendo suas galinhas. Vou dar um tiro no meio daquela carinha lerda dela. Desceu os degraus  da escada e começou a andar em direção ao galinheiro. De repente parou e ficou escutando. Ouvia vozes , alguém dizendo baixinho: “já pegamos quatro, tá bom, estamos demorando muito”. Aí ele caiu na real “são ladrões” pensou. A lua minguante ainda iluminava o suficiente para que ele os visse ao lado do paiol de milho. Apoiou a espingarda na forquilha de um girau e fez uma mira perfeita. Seu dedo indicador direito começou a pressionar o gatilho. Sua consciência entrou em ação e ele pensou: “Saí da cama para matar uma raposa que estava comento minhas galinhas. Agora me deparo com dois homens, fazendo o mesmo papel que a raposa, será que também devo mata-los?”. Ele tinha o direito de defender sua casa e seu patrimônio. Aqueles pilantras estavam em sua propriedade, subtraindo o fruto do seu trabalho. Essa era a essência da coisa. Enquanto mirava, ouviu uma voz no seu ouvido esquerdo: “prega fogo Gumercindo, mate os dois vagabundos” logo em seguida outra voz disse no seu ouvido direito “calma Gumercindo, são só algumas galinhas, duas vidas humanas devem valer mais do que isso você não acha?” e a voz da esquerda insistindo “Atira Gumercindo, larga mão de ser frouxo homem!, vai deixar os caras fugirem?”, e a da direita “Pense bem Gumercindo, não vale as penas literalmente. Amanhã você dá queixa na polícia, deixe a justiça para quem de direito”. Então Gumercindo resolveu seguir o caminho do meio. Inclinou a espingarda e deu um tiro para o alto. No silencio da madrugada o estrondo foi tão forte que ele próprio se assustou, e enquanto caía sentado com o “coice” da espingarda, viu os ladrões sairem em disparada, deixaram as galinhas para trás e desapareceram. Levantou, se recompôs refazendo-se do susto. Enquanto as galinhas voltavam correndo para o poleiro, ouviu a voz aflita de sua mulher; “Gumercindo, cadê você? que tiro foi esse?” O galo repetiu seu canto anunciando que o amanhecer se aproximava. Voltando para a cama, Gumercindo pensou nas vozes que ouviu. Atribuiu a do ouvido esquerdo ao diabo, e a do direito a Deus. Resolveu ficar com a orientação de Deus, pois ele não pediu para ele não atirar, deixou-lhe o livre arbítrio, apenas o pediu para ter calma e refletir na consequência de seus atos. Já o diabo estava muito mandão.

 

PRIMEIRA DECEPÇÃO

               O médico recém formado, atendendo num pequeno posto de saúde em  Uruaçu-GO, recomendou a Júlia que vacinasse seus filhos, era muito importante. Mas ela relutou. “não acredito em vacinas, e sim na imunidade que vem naturalmente, não vou expor meus filhos a um produto manipulado sem muito critério, sem garantia de imunidade permanente, e sujeito a dar reações colaterais as vezes equivalente à própria doença. E além disso você, com essa cara de menino, não tem autoridade nem experiência para exigir isso de mim”. Ele ainda insistiu um pouco, mas concluiu que era malhar em ferro frio. A mulher saiu com ares de superioridade. O médico ficou indignado, comentou o fato com seus colegas mais experientes e ouviu deles que existem grupos de pessoas, formados através das redes sociais, que são refratários ao uso das vacinas, preferindo métodos mais naturais com a homeopatia. Estes grupos estão na contra mão em relação a um esforço mundialmente desenvolvido para formalizar protocolos de  imunizações, coordenados pela Organização Mundial da Saúde, e utilizados na grande maioria dos países. – Doutor Gustavo, o jovem médico citado não se conformou, aquilo era contra tudo o que tinha aprendido nos livros e na faculdade. Era preciso fazer alguma coisa, não era possível concordar passivamente que pessoas expusessem os próprios filhos ao risco de contraírem  doenças já controladas ou erradicadas em todo o mundo. Foi pesquisar na internet, e encontrou vários desses grupos, uns maiores, outros menores, todos com o mesmo discurso, associando as vacinas a verdadeiras teorias da conspiração, ligando sua aplicação ao aparecimento de defeitos no sistema imunológico e ao aparecimento de algumas doenças como o autismo. Todos eles se baseavam em informações empíricas e não confiáveis. Meros boatos que divulgados pela rede faziam-se parecer  verdadeiros. Tentou entrar em contato com eles, argumentar embasado no conhecimento médico, mas foi prontamente rechaçado sob a alegação que aquela era uma decisão da alçada exclusiva dos pais. No seu entendimento, vacinar ou não os filhos não deveria ser uma decisão individual do pai ou da mãe. É um problema de saúde pública, logo implica no interesse coletivo. Ao deixar de vacinar os filhos os pais precisam ter em mente que não estão expondo só os seus filhos, mas todas as crianças com quem eles convivem e interagem. Isso deveria ser até caso de polícia. A conclusão chegada pelo Dr. Gustavo é que a irresponsabilidade humana não tem limites. A atitude desses grupos já está começando a fazer efeito. Já temos notícias do aparecimento de casos de poliomielite, sarampo, difteria e outras doenças que já eram consideradas erradicadas ou sob controle. Sentindo-se profundamente impotente diante desta situação o jovem médico entendeu que pouco poderá fazer, a não ser tentar reverter caso a caso em seu consultório. Quanto à atividade destes irresponsáveis que divulgam tanta asneira e inverdades nas redes sociais é melhor deixar com a polícia mesmo. Foi sua primeira decepção no complicado e emaranhado sistema de saúde pública. Mas isto está longe de desencoraja-lo. Veio para ajudar, e continuará tentando sempre. Mas não é ingênuo, sabe que passará por muitas outras.

AVP 22/07/2020

SAUDADES DO FUTURO

               Uma noite dessas fui ao Teatro Goiânia assistir a um concerto de um pianista de renome internacional. São raras a oportunidade de assistir a esse tipo de espetáculo por aqui, mas sempre que tem procuro prestigiar. Estava marcado para as oito da noite. Cheguei uns dez minutos mais cedo, comprei o ingresso e entrei naquele teatro bonito, mas ainda quase vazio. No horário previsto o pianista deu uma passada pelo palco olhando para a platéia que ainda era pequena. Ele chegou no horário, mas o público não. Foi chegando gente até mais ou menos quarenta minutos depois da hora marcada. O Palco também não estava arrumado, faltava ajustarem o som, a iluminação. Finalmente já eram quase nove quanto anunciaram a entrada do nobre concertista. Ele esperou acabarem as palmas e disse: “me perguntaram ali no camarim se é a primeira vez que venho a esta cidade. Respondi que não, mas é a última. É um desrespeito com o artista e com as pessoas que chegaram no horário. Isso não se faz. Vou tocar em respeito ao acordo comercial, mas isso simplesmente não se faz”. Aí foi a vez do educadíssimo público retribuir-lhe as palavras com uma estrepitosa vaia. – Então fiquei pensando “porque vaia-lo? Ele esta coberto de razão. Não pude evitar a comparação que faço a seguir. Morei fora do Brasil por algum tempo, num desses países do dito primeiro mundo, embora o mundo seja um só. Uma das coisas que mais me marcou, foi o sentimento de respeito com o direito dos outros. Respeito aos compromissos, aos horários, às obrigações. Se um encontro ou uma reunião é marcado para as nove, acontece as nove, quem chegar atrasado  terá que passar pelo constrangimento de pedir desculpas. Se uma pessoa não pode comparecer a um compromisso, tem a decência de avisar por telefone ou qualquer outro meio, não deixa o outro lá plantado esperando. Os espetáculos culturais começam no horário marcado e não se permite que os retardatários entrem para não atrapalhar o andamento. Respeitam-se as filas, as prioridades dos idosos. Durante o tempo que estive lá, discuti em várias ocasiões  sobre as diferenças de comportamento dos nossos povos. Eu era polidamente consolado pela explicação que nós também chegaríamos lá no futuro. Que a realidade deles seria o nosso futuro, que assim que melhorássemos os níveis educacionais nós também chegaríamos ao mesmo estágio. Só que já faz mais de trinta anos, e nada de melhorar por aqui. A educação continua desprestigiada, continuamos desrespeitando a tudo e a todos, e não perdemos a mania de querer levar vantagem em tudo (lei de Gerson). Quando a vaia terminou, e o pianista começou a tocar eu estava completamente envergonhado, e com saudades do “futuro”. Temos fama mundial de divertidos, irreverentes, hospitaleiros. Mas também não passam despercebidos nosso notório desprezo pelo direito das outras pessoas, nem nosso descompromisso com horários. Temos muito ainda a melhorar.

AUTOCRÍTICA

Enquanto navego nas águas  da incerteza

Penso nas idas e vindas percorridas

Buscando calmaria, fugindo às correntezas

Indiferente ao destino, omisso alienado

Me apequenei diante dos desafios

Pelos fracassos escolhi culpados

Mas culpar não posso senão a mim mesmo

Pelo meu comodismo arraigado

Se continuo assim, nunca grito ou reajo

Também serei eu culpado pelo naufrágio

Tivesse eu sido um timoneiro valente

Que enfrentasse as ondas com destemor

Que não ficasse tão apático e indiferente

Mesmo a derrota teria louvor

 

Mas ainda resta um fio de esperança

Se eu romper a inércia e partir para a luta

Assumindo o papel de protagonista

Mandando  para o calabouço da história

Essa corja de filhos da puta

Que mandam e desmandam, toma decisões

Que se assumem como donos da razão

Rasgam a constituição

Defendendo interesses inconfessáveis

Compadrios, conchavos, pouca vergonha

Ferindo de morte o futuro alvissareiro

Que a pátria merece e sua gente sonha

Se não reagir agora só me restará o grito derradeiro

Ai de mim! Povo brasileiro!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O PERDÃO

        “Gedeon, tem uma pessoa aqui procurando por você”, gritou o segurança da oficina. “Quem é?” – “Ele disse que é seu pai”.  Gedeon levou um susto, ficou pálido. Não era possível, tudo que sabia do pai era o que sua mãe lhe dissera a vida toda. Tinha saído para comprar cigarros num domingo a noite e simplesmente desapareceu. Acreditava que o pai tivesse morrido. Ficou sem reação por alguns segundos e por fim disse. “Não pode ser, meu pai morreu, deve ser algum engano, mande embora”. O segurança voltou logo depois dizendo: Ele disse que você está  enganado, e melhor você vir resolver”. – “Tá bom falo com ele daqui a vinte minutos quando sair para o almoço”.  O rapaz almoçava num restaurante a kilo duas quadras abaixo da oficina. Quando saía o homem veio ao seu encontro. “Gedeon Carlos Siqueira é você?” perguntou ao se aproximar  embora já soubesse que era. “Sim, sou eu” respondeu o rapaz e já emendando: “que história é esta de dizer que é meu pai? Eu não te conheço, e meu pai morreu há muitos anos”. – “É,  o que todos pensam, mas é uma longa história que gostaria muito de te contar”. Gedeon pensou em manda-lo à merda. Que conversa fiada era aquela? Mas, alguma coisa o deteve  e ele disse ao estranho: “OK, volte as cinco e meia, quando saio do serviço e ai você me conta”.  Não conseguiu trabalhar direito aquela tarde. Lembrou que a mãe, falecida há dois anos, não gostava de falar daquilo. Sempre encerrava rapidamente o assunto dizendo: “ele está morto e pronto”.  Ao final do dia foram para um pequeno bar perto da oficina, Gedeon pediu uma cerveja e dois copos, serviu e disse: “estou ouvindo, pode contar”. O homem tomou o primeiro gole da cerveja e começou seu relato: “Sou Eurípedes Costa Siqueira, e sou realmente seu pai. Abandonei você e sua mãe quando você tinha três anos. Pressionado por dívidas e por ameaças de agiotas não vi outra alternativa a não ser fugir. Tinha que pagar uma alta quantia naquela segunda feira e não tinha o dinheiro, então no domingo  segui para a rodoviária e comprei uma passagem para Rondônia de onde pretendia avisar sua mãe e assim que encontrasse trabalho mandaria buscar vocês. Não quis deixar pistas, aquele pessoal era muito perigoso e ameaçavam me matar. Aquele era meu prazo final. Fui covarde é verdade, mas não vi outra saída. Dois meses depois, Já trabalhando numa draga de ouro no rio Madeira, entrei em contato com sua mãe através de ligações para a casa de um amigo comum. Ela descartou de saída a possibilidade de vocês irem para aquele “fim de mundo” nas palavras dela. Não levaria o filho para ser criado naquele ambiente selvagem. Insisti por quase um ano, mas ela não mudou de idéia. Assumi então que ela não me amava mais, pois se amasse teria encarado o desafio. Aí o tempo foi se encarregando de atenuar e esmaecer os fatos. Fui ficando, não tive coragem de voltar, tinha medo dos meus perseguidores. O tempo foi passando, me afeiçoei a outra mulher e me acomodei. Tive dois filhos que vivem em Ji-Paraná e cuidam das propriedades que adquiri por lá. Eles sabem de sua existência e cobram com frequência conhecer o irmão”.  Gedeon ouvia calado, pensativo, quis interferir algumas vezes, interpelar o pai por nunca ter vindo vê-lo, saber como estava, se precisava de algum apoio. Só silêncio em todos estes anos. Mas não quis tornar a situação mais difícil do que já estava. O homem continuava sua narrativa: “Nunca me perdoei por abandona-los, e por ter sido tão covarde,  é uma dívida que tenho com o passado.  Soube da morte de sua mãe, e desde então venho me cobrando a iniciativa de procura-lo, finalmente reuni coragem suficiente para enfrentar esse momento. As coisas do passado eu não posso mais apagar mas queria pessoalmente te pedir que me perdoasse, e que de agora em diante pudéssemos estar juntos pelo resto de vida que ainda tenho pela frente. Gostaria de reuni-lo a seus irmãos e que voltássemos a ser uma família”. Gedeon estava estupefato. Nunca imaginara um encontro como aquele. Até ali não tinha mágoas do pai por pensa-lo morto. Sabia que sua mãe nunca deixara de ama-lo pois nunca tentou refazer sua vida. Agora depois de saber a verdade sentiu que se avolumava uma avalanche de ressentimentos e mágoas ameaçando invadir o seu coração. Tinha então dois caminhos: Perdoava verdadeiramente o pai e colocava uma pedra no passado, ou passaria a sofrer  e a se martirizar  por males retroativos. Escolheu o caminho do perdão. Com os olhos marejados levantou-se e abraçou o pai, amparado pelo pensamento de que o seu perdão teria que ser integral e sem condicionantes, senão não seria perdão.