CAMELÔS MODERNOS

As mídias modernas das quais a maior expressão são as redes sociais de todos dos tipos, envolvendo interesses variados, tem influenciado e digo até mais, automatizado e subjugado milhões de pessoas mundo afora. O grau de sofisticação na difusão de ideias, no convencimento, e na precisão com que procuram atingir os “alvos” de seus interesses possibilitam a manipulação das mentes incautas, aliás, a maioria de usuários que sem perceber vão sendo levados pela onda da “modernidade”, uma verdadeira caça aos zumbis intelectuais. É freqüentíssimo depois de acessar por exemplo um site de compras, o usuário começar a ser bombardeado por outros, oferecendo os mesmos produtos, ressaltando melhor qualidade ou melhor preço. Guardando as devidas proporções, a situação se assemelha à daquelas pessoas que ficam na porta das lojas sobretudo nos centros comerciais mais populares, gritando e tentando atrair os fregueses com frases de efeito: “Aqui, tudo pela metade do preço, não fechem negócio se ver nossas ofertas”. – Esse raciocínio não se aplica só a compras, se aplica também ao campo das idéias. Experimente acessar um site com viés ideológico de esquerda por exemplo. O “sistema” automaticamente assume que você tem convicções políticas de esquerda, então oferecem uma porção de outros sites que talvez você possa ter interesse, numa tentativa disfarçada de reforçar os seus pontos de vista. O mesmo se aplica a direita, e isso tem contribuído grandemente para uma polarização cada vez maior e um acirramento de ânimos entre direita e esquerda. – Nada escapa à ação do camelódromo eletrônico. – A cada dia aumentam os blocos de idéias prontas, notícias pré analisadas, verdades pré-estabelecidas que são empurradas para os usuários destas mídias, sem lhes dar tempo de pensar, de exercer seu direito à análise dos fatos. É tão massificante, que as pessoas passam aceitar como normal, como verdade e aí pronto. Está aberto o caminho para a proliferação de notícias falsas, injúrias, difamações e outros nefastos efeitos da má comunicação. É tudo organizado para que o usuário não pense, que apenas aceite e digira o que vem das redes. Com isso, delineia-se a médio e longo prazo, uma geração crescente de seres robotizados, idiotizados e completamente manipuláveis. Está em curso o processo de extinção do pensamento individual dos seres humanos. A ênfase será dada a blocos de informações prontas para o consumo. Vai ganhar o camelô que gritar mais e mais alto.

JUSTIÇA TURVA

Já tarde da noite

Um ministro com olheiras marcantes

Rascunha no pergaminho da história

Um habeas corpus.

Para um inocente? Não. Para um traficante

O pobre homem, coitado!

Perseguido, injustiçado, um pobre diabo

Um infeliz por inteiro

Tão pobre que nada tem, além de dinheiro

Em sua história, muitas vezes homicida

Arruinou tantas famílias, destruiu tantas vidas

Mas o ministro entende que lhe deva dar guarida

Pouco importa a ficha negra

Tão pouco milhões de maldades

Pois nada disso é maior

Que uma tecnicalidade

Não renovaram a preventiva, fazer o que?

Vá meu filho, vá em paz

E a polícia que o prenda de novo

Se for capaz, recursos não faltam

Tem até demais…

TEMPOS SOMBRIOS

Olhando para o desafiador espaço em branco na minha frente chego a conclusão que não sei o que escrever nesta manhã. O processo criativo não tem fluxo contínuo. Vez por outra o cérebro trava ou entra em “loop”como costumávamos dizer quando eu trabalhava nos computadores de uma grande empresa. É preciso ter serenidade e aguardar que ele volte a sintonizar-se com a realidade e me sugira um novo tema. Enquanto isso leio e-mails, mensagens de minhas redes sociais, abro o site de alguns jornais e leio sobre notícias requentadas e tendenciosas principalmente agora que se aproximam eleições. Aos poucos vou me dando conta de que a vida nos últimos tempos está extremamente enfadonha e repetitiva. As limitações impostas pela atual situação epidemiológica criaram uma espécie de “manual” para todas as nossas ações. Resolvi então prestar atenção no desenrolar do meu dia de hoje passo a passo e agora transcrevo: ” Deixei o computador, e após me barbear, tomar um banho, café da manhã, me vesti e resolvi ir para um escritório que mantenho há uns trezentos metros de minha casa. Pelo espelho do elevador Já me pareceu que tinha alguma coisa errada, quando abri o portão, passou um motoqueiro mascarado. Ih! esqueci a máscara. Voltei para busca-la. Antes de seguir para o escritório passei em um pequeno supermercado para comprar umas barras de cereais diet. Esqueci do álcool gel, e fui amavelmente repreendido e mandado de volta à porta para higienizar as mãos. quando fui pagar, tinham três pessoas na frente e me coloquei na fila. A senhora a minha frente virou-se e me disse: “O senhor poderia fazer o favor de respeitar a distância”, então pensei ela tem razão, mas não precisa ficar irritada. No meio da manhã resolvi ir ao banco que fica do outro lado da rua. Estava fechado, o vigilante me disse que por enquanto só por tele-chamada. Na hora do almoço me dirigi ao elevador, quando a porta se abriu tinham dois mascarados lá dentro. Ih! esqueci a porra da máscara. Quando entrei em casa minha mulher veio correndo ao meu encontro. Para me abraçar? não, para me dar uma bronca porque entrei em casa de sapatos. Mais tarde fui cortar meu cabelo. Romário, meu barbeiro estava irreconhecível. Um jaleco de mangas longas com um daqueles protetores de acrílico na face, uma máscara por baixo. Sua voz saía tão abafada e modificada que quase não entendi o seu cumprimento. Ele sempre tão falante desta vez estava quase mudo. “Você está bem Romário, está tão calado?”, ele me respondeu laconicamente: “medo do COVID”. Fazer o que né? Liguei para um amigo para tentar combinar um jantar, eu gosto muito dele, e nossas mulheres se dão muito bem e recebi um: “Não rapaz, não vai dar, não é seguro ainda. Mas você e a Lena podem nos ligar a noite pelo WhatsApp para a gente se ver e bater um papo, tomando um vinho à distância”. Saí do escritório já a noitinha passei pela academia para fazer um pouco de musculação. Não deu, tudo agora tem que ser agendado. Tentei ver os noticiários da noite, e tome COVID. Minha mulher queria ver um filme chamado EPIDEMIA, falei aí também não. Vou escrever. Fui para minha estante, liguei o computador me posicionei para escrever. Lá estava este espaço em branco que não estou conseguindo preencher. Desisti e fui dormir. Quando acordei de manhã ele continuava lá, olhando para mim, desafiador. Espero que a qualquer momento meu cérebro volte a pegar no tranco.

AVP-10/10/2020

O ESCRIBA

Enquanto escrevo

Saio de dentro de mim

Vagueio por muitos caminhos

Converso com gente, pedras,

Passarinhos

Revolvo coisas que já passaram

Tiro lembrança da arca do tempo

E quando acho que já é tempo

Passo ao papel e vos contemplo

Nem tudo se aproveita

Posto que escrita é impulso

Não me comprem no atacado

Podem escolher avulso

É um dom que ainda não domino

Mas vou aprendendo aos poucos

Críticas sinceras acato

Às outras, ouvidos moucos…

PÁGINA VIRADA

Dona Elsa subiu devagar o lance de escadas que dava acesso à casa de seu filho. Fazia meses que não o via. “Ele é um homem muito ocupado” dizia ela de si para si como que justificando o fato de que o filho raramente a visitava no lar de idosos em que a colocara. Naquela manhã, aproveitando um descuido da vigilância, pegou o pouco dinheiro que mantinha escondido em seu quarto e “zapt”, fugiu. Vagou pelas ruas por algum tempo. Não lembrava o endereço completo do filho. Nos flashes de sua memória só tinha sobrado o bairro “Jardim das Acácias”, era perto do centro. Seus quase oitenta anos já não lhe permitiam ir caminhando, precisava de uma condução. Alguém a ajudou a pegar um ônibus. Já perto do bairro de destino, a memória resolveu dar-lhe um auxilio “Panificadora Rezzio”, leu pela janela e saltou no ponto seguinte. Sabia que era ali perto pois ia com frequência àquela padaria. Pediu um leite com café e uma broa de milho enquanto esperava outra ajuda da memória. Desta vez foi a sorte que ajudou. Dona Clara, vizinha do filho, entrou na padaria e a reconheceu: “Dona Elsa, há quanto tempo!, então a senhora voltou? Como vão as coisas lá em Minas?” Dona Elsa desconversou, “Minas, porque Minas”. surpresa Dona Clara disse “Ué, seu filho disse que a senhora tinha voltado para Minas para viver com uma irmã” – Confusa a velhinha fujona pediu para a vizinha leva-la à porta do filho, e ali se despediram. Parou com a mão direita no ar, hesitando um pouco. E se o filho não estivesse em casa? Não combinava com a nora e temia ser recebida por ela. Dito e feito, Margarida abriu a porta e se surpreendendo com a presença da sogra disse: “O que a senhora faz aqui sua desmiolada, já ligaram do asilo querendo saber do seu paradeiro. Vou chamar um taxi e manda-la de volta antes que o Anselmo chegue para o almoço”. Mas Elsa estava resoluta e entrou porta a dento dizendo: “Só saio daqui quando falar com meu filho, e me dê um copo d’água, estou com sede”. Não vendo alternativa, a nora ofereceu uma cadeira e foi buscar a água. Dona Elsa olhando aquele ambiente tão conhecido, não pode deixar de recordar. Ficara viúva há seis anos, perdera seu marido para o câncer de próstata. A princípio preferiu continuar morando sozinha em sua casa, mas como morava em um bairro de criminalidade alta, seus filhos não concordaram. A filha morava na Austrália, a opção que sobrou foi morar com o filho. Tudo foi bem nos primeiros dois anos, no entanto o seu relacionamento com a nora começou e desgastar naturalmente quanto à administração da casa, criação e educação dos netos. A nora se sentia desautorizada pela sogra, e esta maltratada pela nora. Enfim, nada que já não se conheça em relação a esse conflituoso relacionamento sogra/nora. Por fim, sentindo-se profundamente incomodada Elsa manifestou ao filho que gostaria de voltar a morar em sua casa. Encontrariam uma solução. Uma pessoa para morar com ela, uma cuidadora o que fosse. Sentia-se interferindo no relacionamento do filho com a mulher e queria dar um basta nisso. Os netos já adolescentes cada um ficava no seu canto com o celular, ou computador, amigos nas redes sociais e não tiveram tempo para desenvolver laços muito estreitos com ela a não ser quando eram bem pequenos. Após consultar a irmã, Anselmo optou segundo ele por motivos de segurança, encaminhar a mãe para um lar de idosos, onde ela teria companhia constante, pessoas da mesma faixa etária para trocar ideias e experiências. Decidiram por conta própria, sem ouvir a posição dela. Elsa já estava no lar de idosos há mais de ano. Nesse período a filha não veio ao Brasil, e Anselmo estivera lá umas três vezes para visita-la e, em apenas uma, levou os netos. Como tinha família ela sempre esperava por atenção deles, portanto se sentia muito só e abandonada mesmo rodeada de gente. Margarida voltou dom o copo d’água, e ficaram ali numa conversa protocolar. Da cozinha a nora ligara para o marido e Anselmo chegou mais cedo para o almoço. Cumprimentou a mãe com um sorriso e um beijo dizendo: “Não precisava fugir meu amor, me ligasse que eu ia busca-la”. Contendo as lágrimas a mãe pensou: “Conversa fiada, já liguei tantas vezes e você não atende, ou sempre arranja uma desculpa”. Os netos foram chegando um a um da escola, beijaram a avó como se a vissem todos os dias. Cada um com seu foninho no ouvido e balançando a cabeça “oi vó!” era a saudação. Almoçaram, e logo depois Anselmo ligou para o abrigo avisando que ela estava lá, e que a levaria de volta no dia seguinte quando saísse para o trabalho. – Elsa resolveu descansar um pouco em seu antigo quarto. Tiveram que improvisar uma cama para ela. Tinha virado um estúdio de música para os netos. Ela era página virada…

AINDA TENHO ESPERANÇAS

Há pelo menos 50 anos venho esperando por um Brasil melhor. Ja passei por vários Brasis, em cada um deles recalibrei minhas esperanças para a nova ordem política que passava a vigir. Atingi minha maioridade na época do regime militar, dali para cá passei a analisar os fatos com minha própria cabeça. Em todo esse tempo, o traço comum entre eles foi a alienação do povo e um mar de corrupção e desmandos. Venho esperando e lutando desde minha trincheira de cidadão honesto e trabalhador por um tempo em que o povo tenha voz e vez. Pago meus impostos religiosamente, por isso me sinto no direito de falar de governos aberta e destemidamente. Os compadrios e conchavos ora da direita, ora da esquerda levou nosso povo a uma espécie de anestesia e arreflexia política. Uma descrença geral e uma indiferença quanto aos destinos do País. Disso se aproveitaram os ratos de plantão para saquear a nação e distribuir o butim entre a companheirada. Esse estado de coisas foi corroendo os três poderes da república e entranhando o tecido social de maneira que sem percebermos paramos de estranhar os malfeitos. Escondendo-nos atrás do “no Brasil é assim mesmo”. Nunca entregarei os pontos, acho que chegará o dia em que não vamos mais nos envergonhar de ser honestos. A lisura, a honestidade, o compromisso com o bem coletivo será a tônica. Isso no entanto será para meus filhos e netos. Com a chegada deste último governo senti que poderia ser diferente, havia um sopro de renovação no ar. No entanto em que pese suas intenções de mudanças, o presidente vem tropeçando nas próprias pernas, e nas pedras colocadas no seu caminho pelos opositores e até por seus próprios filhos. O bate cabeças entre os poderes é evidente. A vaidade prepondera e se impõe sobre os interesses do povo. Nessa semana por exemplo, fomos surpreendidos por um ministro do STF, concedendo um hábeas corpus a um dos maiores traficantes do país, baseado em tecnicalidades da lei. Ora, manter um indivíduo desta periculosidade preso deveria ser do interesse de todos, inclusive do próprio ministro que concedeu o HC. Qual é a dele? Bater no peito e dizer que aqui quem manda sou eu?. Isso é vaidade pura além de dar margens a deduções bem piores. – Esses desencontros entre a vontade do povo e decisões individuais de alguns ministros do supremo. A atuação dissimulada dos membros do parlamento, e as mãos atadas do presidente, fazem com que minha aspiração se torne cada vez mais distante. Temos hoje um governo divido em várias fatias, cada uma pensando em beneficio próprio, e dane-se o povo. Precisamos de um líder que dê um murro na mesa, puxe a responsabilidade para si e recoloque as coisas nos devidos eixos. Isto não é tão fácil de acontecer. Mas não custa sonhar. Não desistirei nunca de lutar.

INVEJA BRANCA

Quando a noite se aproxima prometendo seus mistérios, e o sol se põe de mansinho no horizonte. O homem da roça sentado na porta da de sua casa assiste o espetáculo diário e gratuito que a natureza lhe oferece. Vê a passarada ainda em algazarra se abrigando na copa das árvores, as galinhas se dirigindo ao poleiro, as vacas apartadas de suas crias berram desconsoladas. A claridade do crepúsculo vai dando lugar a um tom laranja-avermelhado no céu. A noite criando corpo, traz consigo o brilho das estrelas numa transição maravilhosa enquanto a lua cobre de prata tudo o que vê. Os sons do dia adormecem, dando lugar aos noturnos cricrilar dos grilos, coaxar dos sapos, chirriar das corujas, todos procurando atrair as fêmeas para o acasalamento. Tião está cansado, mas agradecido e feliz, para o que, lhe basta muito pouco. Fez todo o trabalho programado para o dia E já fez os planos para amanhã. Seu universo temporal é curto, e suas preocupações além da mulher e dos filhos, se prendem às coisas da natureza: chuva, seca, ventanias, plantio, colheita, criação. As coisas que não entende: política, mercado, inflação, preço da arroba, ou da tonelada, deixa para o patrão que é letrado se preocupar. Sua vida é simples e não pretende complica-la. Vai vivendo segundo suas palavras: “como Deus é servido”., A mulher chama para jantar. Come arroz frango e quiabo, depois pega a viola e volta para o terreiro e, mesmo achando a vida boa, canta canções tristes, toadas, cantigas, modas de viola, quem sabe também com intenções de acasalamento. Os outros peões quando podem se aproximam, contam histórias, trocam experiência até serem vencidos pelo sono merecido depois daquele dia duro do trabalho. – Assim que o galo canta na madrugada Tião já pressente o novo espetáculo que se avizinha, o amanhecer. Levanta antes do sol, já ouvindo o canto dos pássaros que vai aumentando de intensidade gradativamente. É o mundo que acorda. Já está cuidando da ordenha matinal quando o horizonte começa a ficar alaranjado, anunciando o regresso do sol, que se levanta grandioso irradiando luz e calor para o começo de um novo dia. A beleza do amanhecer o enche de esperança, alegria gratidão por fazer parte da grande magia da vida. – Tião entrega-se ao trabalho na certeza que à noitinha tudo começará novamente. Agradece a Deus pelo privilégio de assistir duas vezes por dia a este espetáculos grandiosos da criação. Não, não poderia ser mais feliz em outro lugar. Não tem grandes ambições, quer deixar tudo como está. E não tenho argumentos para discordar. Seja feliz sempre Tião e proteja-se em sua bolha de tranquilidade. Que diferença do meu atribulado mundo. Tenho uma inveja branca de você!

AQUARELA

Quando chega a primavera

A beleza pede passagem

A natureza desfila na passarela da vida

Voltam as chuvas, o verde reaparece

A passarada faz festa

Tudo tem forma de prece

Sou grato por ser um ponto

Na beleza desse quadro

Nesta aquarela que se descortina

Cada qual com sua cor,

Cada cor com seu encanto

Cada flor com sua abelha

Cada homem no seu canto

Olhos molhados de pranto

Reverente agradecendo

O privilégio de continuar vivendo.

AÇÃO E REAÇÃO

O calor intenso, inconsequente

Abrasador continua sua rotina inclemente

Estamos na primavera, devia estar mais ameno

Parece até punição pelo que andamos fazendo

A relva morta de sede, criação passando fome

Em parte é a natureza, mas muito é culpa do homem

O desrespeito geral, vem no colo da ganância

Empurrados pela força da ignorância

Que importa se haverá danos aos seres humanos

Não sou a palmatória do mundo

Faço ouvidos moucos a quem está reclamando

Vou tocando minha vida movida a puro egoísmo

Queimando, poluindo, envenenando

Danem-se o meio ambiente e o discurso de altruísmo

Enquanto assim persistir e o homem não tiver juízo

Só nos resta agarrar uma raiz na beirada do abismo…

SEU ABEL

“Pai, tem uma ambulância na porta do seu Abel, será que ele está doente?” Era meu filho de doze anos chegando da rua. Saí na porta e vi tratar-se de uma UTI móvel, resolvi averiguar. Cheguei a tempo de ver os paramédicos trazendo seu Abel numa maca, ele estava consciente e acenou para mim. Os homens pararam instintivamente pois pressentiram que ele queria falar comigo. Cheguei perto ele pediu que me aproximasse ainda mais e então me disse: “Por favor, vigie minha casa, não deixe que ninguém mexa em nada, sobretudo na minha coleção de armas, e se eu não voltar…” então o interrompi “fique tranquilo seu Abel eu tomo conta de tudo. E deixe de bobagem, o senhor vai voltar sim, e vai estar tudo como deixou”, mas ele não se conformou: “Se eu não voltar, fica tudo sob sua guarda, deixei alguns documentos em cima da mesa. Examine com cuidado e entenderá tudo”. – Seu Abel morava sozinho, e mesmo passando mal, teve forças para ligar para o seu convênio médico pedindo remoção para um hospital. Fiquei olhando a ambulância até virar na esquina. Foi nosso último contato visual. Seu Abel fez um quadro de dissecção de Aorta, foi operado, mais não resistiu. Fui vizinho dele uns oito anos, ficamos amigos as vezes o convidava para jantar em minha casa e conversávamos até tarde, Ele quase nunca falava de si mesmo, família, parentes. Tudo que eu sabia era que ele era Sergipano, e morava em Goiânia há quase vinte anos. Já o conheci aposentado do ministério da saúde. Nunca vi visitas em sua casa. Nunca me apresentou um filho, um parente, estava sempre muito solitário. Durante as celebrações fúnebres que nós os vizinhos providenciamos, apareceram alguns pretensos parentes. Nunca os vira antes mas não cabia a mim tecer nenhum tipo de julgamento. Eu iria fazer exatamente como seu Abel me recomendou. Alguns dias depois resolvi abrir a casa e tomar as providências. À primeira análise deduzi que seu Abel já vinha se preparando para a partida há meses. Tinha uma longa carta me nomeando seu inventariante, que deveria ser registrada no cartório, e um bilhete a parte dizendo que as explicações estavam no pequeno gravador digital sobre a mesa. Liguei o gravador, e senti um arrepio ouvindo a voz do amigo falecido se dirigindo a mim, foi uma sensação estranha. Dizia ele: “Prezado Nilson, quando você ouvir esta gravação eu já terei partido desta vida. Já me custa muito viver desta maneira solitária e triste. Tenho família em Lagarto-SE, filhos, irmãos, tios, primos, mas fui obrigado a me afastar deles pelo seguinte motivo: Sou da família “Portela”, inimiga da família “Bezerra” há há mais de cem anos. Essa escaramuça já custou muito vidas de parte a parte. Acho que uns quinze ou vinte já foram mandados mais cedo para cemitério. Depois que minha primeira mulher morreu, passado o luto, eu, um homem de cinquenta anos de idade, me vi envolvido a princípio, depois apaixonado por Domingas Bezerra. Tornei-me um pária, um traidor para ambas as famílias. Fui ameaçado de morte pelos Bezerra, e os Portela me abandonaram à própria sorte. Me viraram a costas como se eu fosse um leproso. Me sentindo acuado, vendi o que tinha por lá e fugi com Domingas para cá”. Era uma longa narrativa, interrompida por momentos de choro e emoção. “Me estabeleci por aqui, Transferi meu emprego e fui até me aposentar. Construí um grande patrimônio em imóveis, ações, debêntures, participações societárias. A relação está aí junto com os papéis. Tive dois filhos com Domingas, o mais velho morreu aos cinco anos vítima de um tipo raro de hepatite, e o outro não chegou a completar um ano. Acho que nosso sangue não era compatível. Por fim, Domingas também se foi levada pelo câncer. Então fiquei eu e Deus dentro desse casarão”. Nunca mais pisei na minha terra. Tentei ligar para meus filhos muitas vezes, mas fui sempre tratado com indiferença e desprezo. Conclusão, não tenho herdeiros. Já deixei um documento no cartório autorizando você a dispor de todos os meus bens da maneira que quiser. Agradeço pela sua amizade, seu apreço. Você foi meu único amigo durante os últimos oito anos. Portanto proceda de acordo com sua vontade, faça o que quiser”. e terminou aquela estranha gravação com um “adeus amigo”. – Fiquei muito tempo ali sentado olhando o gravador e pensando no que fazer. Depois do processo legal tomei posse dos bens e da conta bancária de seu Abel. Era muito dinheiro. Alguns parentes tentaram invalidar sua vontade na justiça mais aos poucos foram desistindo. Enquanto isso criei uma pequena fundação à qual dei o nome “FUNDAÇÃO ABEL FAGUNDES PORTELA”, que se destina a ajudar estudantes pobres, da rede pública de ensino e com bom potencial acadêmico, a realizarem seus sonhos. – Foi a maneira que achei, para dar um pouco de sentido à vida e à luta íntima de um ser humano do bem. Acho que seu Abel deve estar satisfeito.